Madrigal Melancólico

Poema de Manuel Bandeira

Cena do filme “Orgulho e Preconceito”, de 2005, com Keira Knightley e Matthew Macfadyen

O que adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,

Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

Feio

Cena do filme “Superman”, de 1978, com Christopher Reeve e Margot Kidder

Sou feio
como todos são feios
quando querem ser.
Sou feio
e terei que ser feio
até me perder.
Sou feio
pois não quero chamar
sua atenção:
Você já está cheia,
eu nunca entrarei no seu coração.

Te amo
e guardo este amor
aqui em meu peito.
Você é amiga,
amiga, amigo:
Desastre perfeito!

Curitiba, 1986